20/05/12



"Amainaste as tempestades que pareciam infindáveis e aconchegaste-me no regaço onde teimo em repousar"

17/04/12


Queima o sangue um fogo de desejo,
De desejo a alma é ferida,
Dá-me os teus lábios: o teu beijo
É o meu vinho e minha mirra.
Reclina para mim a cabeça
Ternamente, faz que eu durma
Sereno até que sopre um dia alegre
E se dissipe a névoa nocturna.

Aleksandr Púchkin, in «O Cavaleiro de Bronze e Outros Poemas»

10/04/12



Não digas nada!
Nem mesmo a verdade
Há tanta suavidade em nada se dizer
E tudo se entender -
Tudo metade
De sentir e de ver...
Não digas nada
Deixa esquecer

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vã
Toda essa viagem
Até onde quis
Ser quem me agrada...
Mas ali fui feliz
Não digas nada.


(Fernando Pessoa)

27/03/12


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Mário Cesariny, in Pena Capital

05/02/12




do melhor de L'arpeggiata

01/02/12

Once upon a time in February...




"...A coluna onde me esperavas e o mundo desfazendo os contrários..."

22/01/12

17/01/12


Sabedoria do Mundo

Não fiques em terreno plano.
Não subas muito alto.
O mais belo olhar sobre o mundo
Está a meia encosta.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

08/01/12

06/11/11


04/10/11


Andam palavras na noite
Cansadas de me chamar.
Trago os meus lábios salgados
E algas no paladar.

Eu sou um grande oceano
Que só fala a voz do mar!
Mas já sinto o mar cansado
De pedir o luar ao céu
Que a Noite não lhe quer dar!


Natália Correi in Rio de Nuvens

20/08/11

22/07/11




P O V O A M E N T O

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

Ruy Belo in Aquele Grande Rio Eufrates

10/06/11

07/05/11

06/05/11




Foi atribuida hoje a Bandeira Azul à minha praia preferida
Porto Pim - Horta - Faial -Açores

01/05/11

28/04/11



...
de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena,Desencontro in 'Post-Scriptum'

17/04/11

10/04/11


Desenho de Urbano



andar por ai
dentro da tua sombra,

enxuto



Emanuel Jorge Botelho, Dois Poetas e Um Pintor, Ed Artes e Letras.
(Livraria Solmar)

03/04/11

19/02/11

10/02/11


Foi para ti que criei as rosas.
Foi para ti que lhes dei perfume.
Para ti rasguei ribeiros
e dei às romãs a cor do lume.

Foi para ti que pus no céu a lua
e o verde mais verde nos pinhais.
Foi para ti que deitei no chão
um corpo aberto como os animais.


Eugénio de Andrade

06/02/11

09/01/11

06/01/11



preciosidades do meu baú

31/12/10


Receita de ano novo


Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

23/12/10

Feliz Natal


Adoraçao dos Pastores de Josefa de Óbidos


Honrarei o Natal em meu coração e tentarei conservá-lo durante todo o ano

Charles Dickens

19/12/10

16/12/10


A Minor Bird by Robert Frost


I have wished a bird would fly away,
And not sing by my house all day;

Have clapped my hands at him from the door
When it seemed as if I could bear no more.

The fault must partly have been in me.
The bird was not to blame for his key.

And of course there must be something wrong
In wanting to silence any song.

09/12/10



Milhões de barcos perdidos no mar!
Perdidos na noite!
As velas rasgadas de todos os ventos
os lemes sem tino
vogando ao acaso
roçando no fundo
subindo na vaga
tocando nas rochas!
E quantos e quantos naufragando...

Quem vem acender faróis na costa do mar bravo?!
Quem?!

Manuel da Fonseca, Rosa-dos-Ventos

22/11/10



Na sombra da montanha
dormem os lagos verdes e calmos
E na tela da água o brilho do sol
desdobra as cores do dia que nasce


Poema celta

13/11/10

27/08/10


Creio nos anjos que andam pelo mundo,

Creio na deusa com olhos de diamantes,

Creio em amores lunares com piano ao fundo,

Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

*

Creio num engenho que falta mais fecundo

De harmonizar as partes dissonantes,

Creio que tudo é étero num segundo,

Creio num céu futuro que houve dantes,

*

Creio nos deuses de um astral mais puro,

Na flor humilde que se encosta ao muro

Creio na carne que enfeitiça o além,

*

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,

Na ocupação do mundo pelas rosas,

Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.



Natália Correiain A Mulher, antologia poética (Antologia), 1973

22/07/10

Per Te



Quase de nada místico

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.


de Às Vezes o Paraíso



Ana Luísa Amaral
Anos 90 e agora
Uma Antologia da Nova Poesia Portuguesa

10/07/10


dá-me os teus olhos

eles são lagos, crateras de atenção, e a tua boca na minha torna o meu vestido num fragmento de mim, tecido-terra por onde circula a claridade

dá-me os teus olhos

esta é a hora temperada de excepcionalidade, de um não-pensar, via da consolação e dom, momento em que nada se disse e não importou

dá-me os teus olhos, só assim serei alguém de amor


Ana Marques Gastão

03/07/10


14 de Março de 1916

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá; e é esta a razão íntima de todo o meu sofrimento.
Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueca.


Excerto de carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro

26/06/10



Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, e depois perdem o dinheiro para a recuperar. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se não tivessem vivido...

Confúcio

22/06/10

per te

17/06/10

15/06/10

12/06/10



Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.

09/06/10

andando por ai

06/06/10

domingo á tarde

03/05/10

02/05/10


CANÇÃO DA PRIMAVERA

Eu, dar flor, já não dou. Mas vós, ó flores,
pois que maio chegou,
Revesti-o de clâmides de cores!
Que eu, dar flor, já não dou.

Eu, cantar já não canto. Mas vós, aves,
Acordai desse azul,calado há tanto,
As infinitas naves!
Que eu, cantar, já não canto.

Eu, invernos e outonos recalcados
Regelaram meu ser neste arripio...
Aquece tu, ó sol, jardins e prados!
Que eu, é de mim o frio.

Eu, Maio, já não tenho. Mas tu, Maio,
Vem, com tua paixão,
Prostrar a terra em cálido desmaio!
Que eu, ter Maio, já não.

Que eu, dar flor, já não dou; cantar,não canto;
Ter sol, não tenho; e amar...
Mas, se não amo,
Como é que, Maio em flor, te chamo tanto,
E não por mim assim te chamo?

José Régio

23/04/10

19/04/10


A profunda harmonia entre ela e o mundo - uma harmonia difícil, instável, porque ela insistia sempre em viver com rigor, com uma atenção que não afrouxava nunca, mesmo quando dormia - o rigor, por exemplo, com que domava ou desmanchava os sonhos, obrigando-se a lembrá-los, obrigando-os a saltar por dentro de arcos incendiados, as flores imaginadas formando finalmente um ramo, as flores de sombra, de sol, de areia, domar o vento, aprender a cavalgar o vento, pôr um risco de azul a contornar o mar, a dura acrobacia do seu corpo, ao mesmo tempo solto e geométrico, os difíceis exercícios interiores, os saltos mortais de olhos vendados sobre um fio de arame estendido entre o possível e o impossível.

Teolinda Gersão, Os Guarda-Chuvas Cintilantes, 1984

24/03/10


Do anónimo rumor

Estou ouvindo sem ouvir o que sempre ouço
o anónimo rumor de tudo ser o que é
tão irrevogável como o silêncio que através dele é só silêncio
Nunca uma palavra ou um gesto poderá alterar esta ausência
do que nunca se manifesta mas que faz surgir os seres e as coisas
Tal é o domínio da existência a que não se pode fugir
e em que se morre com a boca apagada por um grito ou um suspiro
O que acontece em cada dia é o fortuito fluir
do que só é necessário em si mas não para nós
Não nós não estamos no mundo mas na distância insuperável
de um ser inacessível e essa distância somos nós
Nunca poderemos conhecer o insondável ser
que não é mais do que tudo o que é mas sem o ser
Em vão procuramos a presença deste ausente
Sabemos que se ele se manifestasse o mundo não seria o mundo
e a sua presença seria um excesso que anularia a nossa liberdade
Não há contrapartida para o desamparo não há consumação
para o que no existir é a crispada urgência
e a morte é sempre extemporânea

António Ramos Rosa

21/02/10

Para ti...

17/02/10


No pingo da chuva o sal da terra
e o cheiro da vida

assim se cozem os sentires impressionistas


Maria Helena Monteiro

23/01/10




“…Milagre é o coração começar sempre
no peito de outra vida."



Mia Couto in “a Chuva Pasmada

30/12/09

Feliz Ano Novo




Recomeça….

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga

23/12/09

Feliz Natal


Falavam-me de amor

Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,

menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.

Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.

O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.

Natália Correia in O Dilúvio e a Pomba

16/12/09



De dia correm nuvens, flutuantes!
De noite vivem estrelas, cintilantes!
Se ousares subir tocando em cordas puras,
Entoarás a eterna música das esferas.


Johann Wolfgang Goethe, in O jogo das nuvens

12/11/09


Não sei para que lado da noite

Não sei para que lado da noite me hei-de virar
onde esconder de ti o rio de fogo das lágrimas
quase a transbordar e acendo mais um cigarro
e falo atabalhoadamente de um futuro qualquer
e suspiro de alívio porque não ouves o que digo
ou se calhar também não sabes onde te esconderes
esperamos que se ilumine o lado certo da noite
é quando se esgotam as palavras e os silêncios
e a minha mão procura a tua que a recebe
e a noite se unifica e todos os rios secam
menos um por onde navegamos
para abolir a noite.

Carlos Alberto Machado in Talismã

31/10/09



Silentium

Speak not, lie hidden, and conceal
the way you dream, the things you feel.
Deep in your spirit let them rise
akin to stars in crystal skies
that set before the night is blurred:
delight in them and speak no word.

How can a heart expression find?
How should another know your mind?
Will he discern what quickens you?
A thought once uttered is untrue.
Dimmed is the fountainhead when stirred:
drink at the source and speak no word.

Live in your inner self alone
within your soul a world has grown,
the magic of veiled thoughts that might
be blinded by the outer light,
drowned in the noise of day, unheard...
take in their song and speak no word.

Fyodor Tyutchev (trad.de Vladimir Nabokov in Three Russian Poets)

29/09/09



Poema

Eleges o lugar da ferida
onde falamos o nosso silêncio.
Fazes da minha vida
esta cerimónia demasiado pura.

Alejandra Pizarnik in Antologia Poética

23/09/09



37° 52' 5.08" N 25° 47' 35.96" W

20/09/09



eu, gaivota
sobrevivente de tempestades
voo planando sobre o teu corpo ilha
e nem os ventos contrários que fustigam as asas
impedem-me o verde

11/09/09



existe sempre ontem na memória que me enche de
sonhos, os teus dedos tocam-me dentro dos sonhos.
nos teus lábios, imagino beijos. perdi-me no mundo.

José Luís Peixoto in “A casa, a escuridão”

05/08/09


Imagem: Helena Monteiro - Caneta/pincel com tinta da China

Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento
virás abraçar-me como os ramos da árvore
e chegaremos ao coração da cidade

Ao meio-dia sei:
A distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido
eis a anatomia do silêncio

De tarde fico exausta:
Circulo pelas ruas e roço-me nas praças

À noite adormecemos:
Será que te lembras? será que me lembro?

Amanhã alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir ao teu encontro.

Teresa Balté in Poesia Quase Toda

25/07/09


Magnificat

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, Quem tens lá no fundo?
É Esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma: será dia!

Álvaro de Campos - Obras Completas

22/07/09

especialmente hoje


No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
...

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas
a espera do silêncio

Mia Couto in Desencontros

17/07/09


Sables mouvants

Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s'est retirée
Démons et merveilles
Vents et marées
Et toi
Comme une algue doucement carressée par le vent
Dans les sables du lit tu remues en rêvant
Démons et merveilles
Vents et marées
Au loin déjà la mer s'est retirée
Mais dans tes yeux entrouverts
Deux petites vagues sont restées
Démons et merveilles
Vents et marées
Deux petites vagues pour me noyer.

Jacques Prévert in "Paroles"

11/07/09


Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz

quero morrer
com uma overdose de beleza


e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador

Al Berto in O Medo

01/07/09


Onde tu pousas as mãos,
naturalmente
eu vou pousar as minhas. Um silêncio
faz-se pela casa, uma luz coada vem da janela
e cobre os móveis de uma poalha
doirada. Os objectos estão quietos
como nunca.

Onde tu pousas as mãos,
onde tu pousas mesmo se brevemente as mãos,
torna-se íntima a percepção que se tem de cada hora,
de cada amanhecer,
de cada exacto momento. O entardecer
é só um vasto campo que se abre,
um rumor de folhas que restolham no jardim.

Escrever é ler,
ler é escrever - eu sei isso
porque em cada sítio onde [do meu corpo] tu pousaste as tuas mãos
ficou escrito - eu vejo-o: nítido -
sobre o mais frágil espelho dos sentidos, uma palavra que se lê
de trás para diante. Quando te deitas eu sinto-lhe o perfume,
que é o da noite que entra pela janela.

E onde tu pousas as tuas mãos faz-se um rio
de prata e de quietude mesmo nas minhas mãos
que pousam onde as tuas foram antes procurar
a quietude, procurar as tuas mãos. São exactas as tuas mãos,
são necessárias, têm dedos
que são os filamentos de gestos que descrevem na penumbra
desenhos tão perfeitos que surpreendem.

Onde tu
pousares as tuas mãos
eu quero estar.
Exactamente como a sombra
cai na sombra. A água
na água. O pão
nas mãos.

Bernardo Pinto de Almeida in Hotel Spleen

25/06/09


as palavras hibernam
nas cores esbatidas de lentas madrugadas
áridas sonolentas as mãos pausam
na ausência da tua pele poema

ate que o tempo acorde

24/06/09



há mortes que não sabem que a morte

é um verso que deixa

destroços


como um grande naufrágio



Maria Azenha

28/05/09



distendem-se as asas
ensaio o voo...

que nas tuas mãos molda-se a miragem do mundo novo

25/05/09



"...Em ti respiro, em ti eu provo
Por ti consigo esta força que de novo
Em ti persigo, em ti percorro
Cavalo à solta pela margem do teu corpo..."

17/05/09


o teu rosto à minha espera.o teu rosto
a sorrir para os meus olhos.existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos finas e claras.vês-me
sorrir. brisas incendeiam o mundo.
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de Outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos.
este dia será hoje na memória.

hoje compreendo os rios.a idade das
rochas diz-me palavras profundas.
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

José Luis Peixoto in «A casa, a escuridão»

09/05/09

03/05/09



entre cinzas despontam horizontes límpidos
e da tua voz promessa, madrugadas sem bruma

tão simples
como o sopro do vento que embala a flor…